terça-feira, 19 de março de 2013

Crônica

Crônica do Amor - Arnaldo Jabor


Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana no emprego, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a
menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?
Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim. 


Vamos Contextualizar?
Arnaldo Jabor (1940- atual) é um cronista contemporâneo, ele traz o “leitor” para dentro do seu texto, o incita a participar de seu texto e ao mesmo tempo a refletir sobre o objeto em questão, neste caso o amor. 
Pode-se dizer que se estabece um "diálogo" entre cronista e leitor, em especial nessa crônica, o cronista apresenta-se como alguém que ama ao outro não pela inteligencia, beleza ou conta bancaria. Com isso espera-se uma identificação do leitor com ele (cronista), já que existem no cotidiano muitos leitores que estão em busca de um amor.


2 comentários:

  1. o escritor tras sim o leito para o texto, mas temos que lebrar que o amor e um tema universal, logo atrai a muitos. quem nao quer amar ou ser amado ? eu quero. falar do amor e muito complicado, pois cada um ama a sua maneira. entretanto uma ideia fixa que tenho em minha mente e que quando se ama o mai8 importante e o que se da e nao o que se recebe, mas tambem nao creio num amor solitario tem que haver um retorno. ta vendo falar de amor e tao complicado ? para amar nao tem regras pois como minha mami fala coracao e terra que ninguem anda ou manda.

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  2. Eu me identifico nesta parte do texto: "Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

    Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera."
    Pois todas às vezes que me apaixonei foram por esses detalhes na pessoa que mais me encantava e chamava a atenção.

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